quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Um brinde à Biblioteca Nacional

Ao saber da existência de uma excursão organizada pelos alunos de Biblioteconomia da UFMG, para conhecer a Biblioteca Nacional no Rio de Janeiro, pensei em aproveitar a oportunidade para refletir a respeito do meu curso e resolvi conhecer a tão famosa Biblioteca. Achei que a visita poderia também servir como estímulo para meus estudos, já que, às vezes, pairam algumas incertezas na mente do estudante.
Já na chegada ao prédio, a impressão foi muito forte. Fomos recebidos por um funcionário da instituição que, no saguão, forneceu detalhes sobre a construção do prédio, que data de 1910, e conceitos históricos. Mas o que me chamou a atenção foi a descrição dos detalhes de duas pinturas localizadas no saguão do prédio. Do lado esquerdo da entrada, uma das telas mostrava a imagem de um cavalo montado por um esqueleto voando num céu nublado; deitadas no chão, pessoas com semblantes carregados pelo sofrimento e tristeza. Abaixo da tela, esculpidas em pedra, pessoas agredindo e violentando umas às outras. Essas imagens trazem um significado: o cavalo voador simboliza a ignorância, que resulta em tristeza, violência e morte - esta representada pela caveira amazona.
Do lado direito, havia outra tela com a imagem de uma mulher descendo do céu azulado; na terra, pessoas - entre elas uma criança - traziam na face expressões de alegria. Toda a beleza presente nesse quadro retrata a sabedoria. Desde a mulher que desce do ceu até a criança que “olha” para o espectador, dando a entender que a sabedoria contempla qualquer pessoa, sem distinção. Esculpidas em pedra abaixo da tela, viam-se pessoas colaborando e ajudando umas às outras, num ambiente de solidariedade, fruto do conhecimento.
Isto foi apenas o início. Depois, visitamos algumas salas com enormes janelas e móveis da época, ali presentes desde a construção do edifício. Ao subirmos as escadas, cobertas por tapete vermelho, deparamos com o busto de Dom João VI. E, ao chegarmos no segundo andar, mal sabíamos que o melhor estava por vir. Fomos presenteados com uma exposição de obras raras, acessíveis só em circunstâncias especiais para pesquisa.
Ao apresentar aquelas preciosidades, a bibliotecária falou sobre o livro que estava bem diante de mim: uma obra do século 14, um livro de oração, escrito em latim e com ilustrações. Quando a bibliotecária começou a folhear aquele livro, meus pensamentos acompanharam a trajetória que ele deve ter feito até chegar ali. Na verdade, me perdi entre o tempo e o espaço: imaginei embarcações em que aquele livro já esteve, tempestades enfrentadas, estradas de terras por onde passou. Apesar de tantas intempéries, me admirei que ele estava ali, bem conservado, diante de nós.
Dentre outras raridades, vimos uma carta escrita por Tiradentes, além de livros presenteados a reis e rainhas. Detalhes em madeira, couro e pigmentos em ouro embelezavam as capas desses livros, obras dos séculos 17 e 18. Tentei descrever o que ocorreu comigo naquele momento, mas não consegui. Só posso afirmar que senti uma emoção muito forte e que passei a alimentar uma certeza: escolhi uma profissão muito importante.
Poderia falar dos lugares que visitei na Cidade Maravilhosa: o Museu de Arte Contemporânea, uma das mais belas obras de Oscar Niemeyer, a Fortaleza de Santa Cruz da Barra, construída em 1555 em Niterói, ou comentar sobre as noites agradáveis na Lapa, o Cristo Redentor e a Estação Primeira de Mangueira, onde tive a chance de ver a disputa do samba-enredo para o carnaval de 2008. Poderia descrever cada lugar e cada momento com sua singularidade.
Contudo, para mim, estudante de biblioteconomia, não houve nada tão especial como conhecer a Biblioteca Nacional. Saímos de lá com a sugestão, dada pelo guia e pelo recepcionista, de aproveitar o calor e tomar uma cerveja bem gelada em algum dos bares nas imediações, no Arco do Telles. Notei certo desânimo entre alguns colegas, cansados da viagem, mas insisti que deveríamos comemorar com um brinde à Biblioteca Nacional. No caminho, alguns colegas agradeceram a sugestão, porque, apesar do cansaço, surgiu um motivo que reacendeu o ânimo da turma. Ao chegarmos nos bares do Arco do Telles, fizemos um brinde à Biblioteca Nacional e relembramos detalhes da visita.
Dias depois, já em Belo Horizonte, e retomado as aulas, percebi que muitos colegas do curso, queriam ter realizado essa viagem e não puderam devido à dificuldade de recursos. Seria muito bom que surgisse algum projeto que transformasse a visita à Biblioteca Nacional numa atividade acadêmica, estendida a todos os cursos e que fosse custeada pela universidade ou pelas entidades de assistência estudantil para possibilitar o acesso aos alunos que não tem condições financeiras para realizar essa visita tão especial. Assim para aqueles que têm até o sonho de conhecer a Biblioteca Nacional teriam a chance de conhecê-la, e até mesmo viver uma experiência arrebatadora, dessas que a gente guarda para o resto da vida.

Publicado no Boletim UFMG dia 10/12/2007.

Júnio César Barbosa Louback, aluno do 2º período do curso de Biblioteconomia (noturno).

4 comentários:

Unknown disse...

Olá!Não sei por onde começar ,mais vou tentar me expressar da melhor maneira.
Gostei muito do texto do nosso amigo Júnio,não conheço ainda a Biblioteca nacional , mais senti como se estivesse lá dentro. E observando todos os detalhes percebi o quanto o lugar é maravilhoso.
Parabenizo toda turma pela escolha do curso , realmente é um curso muito interessante e que desperta grandes histórias e acontecimentos.
Precisamos disso , de conhecimento, de dispertar-mos para o conhecimento.
Gostaria de deixar duas frases para meditação.
"O conhecimento da verdade traz libertação "

" Em mãos que carregam livros , não cabem armas"

Anônimo disse...

EI. Só tenho a dizer que através de léxicos simples, mas de uma maneira fantástica, você foi capaz de relatar minúcias tanto do passeio realizado quanto dos pensamentos que lhe tomaram conta enquanto você estava diante da Biblioteca Nacional, bem como das maravilhas que a compõe. Não conheço a biblioteca, porém, após ler o seu texto, confesso que uma vontade enorme tomou conta de mim. E espero que muito em breve eu possa ir lá e então, será a minha vez de lhe contar todas as minhas sensações vivênciadas.
Parabéns pelo texto. E continue escrevendo sempre. Espero também que o seu pedido quanto a esse tipo de passeio abranger a todos os estudantes, de forma geral, seja atendido.
Abraços.

Anônimo disse...

Adorei seu texto. Vc certamente escreverá outros, incluindo artigos da nossa área. Vc conseguiu retratar com simplicidade detalhes que, provalvemmente, passam despercebidos por muitos. Achei bastante pertinente a questão da visitação à BN para os alunos da nossa escola. Eu mesma, sou uma que ainda não visitoi, mas não foi por motivos financeiros, foi peloe trabalho. Se isso fizesse parte do nosso currículo, os patrões teriam que nos liberar. Ou estou falando bobagem?
Parabéns!!

Kellen Mendes disse...

Júnio,

Parabéns pela habilidade em transformar sensações em palavras e por compartilhar conosco seu sentimento ao conhecer nossa querida Biblioteca Nacional, estive nela em 2006 e você conseguiu me fazer sentir nela novamente.

São de pessoas como você, com esse espírito de conhecer e dividir esse conhecimento que nosso curso precisa pra novamente recuperar "o gás" que vem faltando nos alunos.

Abraços calorosos "Biblioamigo"